De Luiz Carlos Lourenço

Fotos de divulgação

O corpo da atriz e cantora brasileira ROGÉRIA foi velado nesta terça-feira no foyer do Teatro João Caetano com honras inerentes a uma grande estrela, mesmo sem a presença de centenas de personalidades que, em entrevistas para as luzes das TVs afirmavam serem seus amigos e que “a adoravam”. Ela será sepultada na manhã desta quarta-feira, dia 6, às 11 h, no jazigo de sua família, em Cantagalo, onde nasceu, há 74 anos.

A atriz morreu na noite de segunda-feira, vítima de um choque séptico decorrente de uma infecção urinária após ser internada no hospital Unimed, na Barra da Tijuca, onde estava desde 8 de agosto devido a uma série de complicações renais.

“Tenho memórias muito fortes dela quando eu era criança. Rogéria sempre me dizia coisas engraçadas, estimulantes e bonitas. Era uma pessoa sempre para cima”, destacou a atriz, produtora e diretora LEANDRA LEAL, que dirigiu o premiado documentário “Divinas Divas“. “Ela fazia do sonho uma meta”, acrescentou a filha de Ângela Leal.

Já a atriz GLORIA PIRES, que ficou no velório por várias horas, relembrou a amizade de seu pai, o ator e comediante Antonio Carlos com Rogéria e destacou para os jornalistas ali reunidos o pioneirismo da falecida nas lutas contra a homofobia e a discriminação. “ Rogéria foi a percursora de tudo, sempre expondo seus pontos de vista com muita determinação e elegância. Eu sempre a admirei intensamente”

Os problemas de saúde da atriz começaram em meados de julho, quando foi internada. Dias depois, sofreu uma convulsão e precisou ser entubada. Ao ser hospitalizada mais uma vez, uma cirurgia no rim esquerdo acabou sendo adiada.

Outras notáveis que estiveram no velório foi as outras atrizes integrantes das Divinas Divas, Valeria, Kamille K, Fujika de Holliday, Brigitte de Búzios e a também vedete Jane de Castro, que estava muito emocionada.

“Convivemos na vida e no palco. Foram 50 anos de palco, trabalhando juntas, entre tapas e beijos, como irmãs. Uma pessoa maravilhosa que vai nos deixar muita saudade“, disse. “Uma pessoa fantástica em todos os sentidos. Além da grande capacidade artística, tinha um imenso caráter”, acrescentou.

Durante todo o velório, dezenas de coroas de flores foram entregues no teatro, destacando-se as enviadas pelo diretor presidente da LBV, José de Paiva Netto; da cantora Alcione e família; do irmão de Rogéria, Flavio Barrozo e o empresário dela, Alexandro Haddad; do Teatro Rival e a família Leal; do Sindicato dos Atores e Técnicos do Rio de Janeiro(Sated-RJ); do animador e apresentador Jorge Perlingeiro, da Secretária Municipal de Cultura, Nilcemar Nogueira; do produtor da TV Globo, Boninho e sua família; da Secretaria Estadual e também do Canal Brasil.

Compareceram ao velório ainda diversos amigos e admiradores de Rogéria como o maquilador Divina Núbia, o produtor de shows e concursos Orlando Almeida, o maquilador de Alcione, Tadeu (performático como Meime dos Brilhos), o pesquisador Cesar Sepulveda, os escritores Simon Khoury e Marcio Paschoal (que escreveram livros sobre a vida e a carreira de Rogéria, Jorge Iglesias (Isabelita dos Patins), Divina Aloma, Claudia Celeste, Suzy Parker, Yeda Brown, as cantoras Luciene Franco, Beth Guilher, Ellen de Lima e Vitória Virtus e Watusi, o produtor de carnaval e criador de shows Silvinho Fernandes, Regine de Mônaco, Jorge Bahoum, o cantor Marcio Gomes, o premiado fotógrafo Ricardo Beliel, acompanhado de sua mulher, o ator, produtor e poeta Jorge Salomão, o fotógrafo Daniel Marques, o jornalista Renato Fernandes, o secretário de Desenvolvimento Humano do Estado e que dirige o projeto Rio Sem Homofobia, Claudio Nascimento, o engenheiro Theo Erthal e diversos integrantes da Turma Ok, além de um grupo de mulheres garis que apreciavam as apresentações de Rogéria. As cantoras Gottsha e Eliana Pittman, por estarem retidas em compromissos de carreira em São Paulo, enviaram mensagens de condolências aos familiares de Rogéria.

No início da tarde, um frei Francisco reuniu o público para fazer orações para Rogéria, orando alguns salmos da Bíblia e culminando com uma oração de Chico Xavier, denominada “Se eu for antes de você”comandados pela atriz e produtora LEANDRA LEAL, um grupo se reuniu em torno do corpo de ROGÉRIA e cumprindo uma tradição comum aos atores, saudaram a artista com algumas palavras e lembrando suas atuações, passando a cantar o célebre hit de Edith Piaff, “La Vie Em Rose”, com as vozes possantes de de Valeria, Jane Di Castro, Ellen de Lima e Leandra Leal, seguindo-se uma canção animada do antigo musical Les Girls.

Durante o velório, diversos artistas discutiram o encaminhamento de um pedido ao produtor e dono de teatro Orlando Miranda, proprietário do Teatro Princesa Isabel, no Leme, para que a casa mude seu nome para TEATRO ROGÉRIA, já que naquele palco a artistas fez seus primeiros grandes show depois que retornou vitoriosa da França, no início dos anos 70.

Seria uma iniciativa muito boa e poderia servir de estímulo para tornar ainda mais agradável aquele teatro. “daria um “up” na casa”, comentaram, entre outros, Luciene Franco, Gloria Pires, Beth Guilher, João Procópio Netto e Leandra Leal.

O empresário e amigo, Alexandre Haddad, acredita que a atriz descansou. “Nos últimos dias ela estava sofrendo muito”, comenta. No entanto, o produtor de Rogéria acreditava que ela iria se recuperar. “Nós, os amigos, tínhamos esperança de que ela iria sair dessa. Eu a amava demais, a gente conviveu por mais de 15 anos”, lamenta Alexandre.

Já a atriz Jane de Castro lembrou de quando as duas se conheceram. “Ela era minha irmã. Quando nos conhecemos morávamos em Cascadura, no subúrbio, e tínhamos 16 anos. Nem sonhávamos em ser artistas. Então, nos tornamos uma família e nunca mais nos separamos e acabamos todas, daquela época, no palco”, recorda. “Hoje, os holofotes se apagam”, conclui Jane.

Leandra Leal que fez o documentário “Divinas divas“, que conta com a participação de Rogéria, diz ser grata por ter conhecido a atriz. “Ela sempre esteve na minha vida. Não lembro quando ela entrou de fato. Ela foi a essência para a minha formação. Ela abriu portas para uma geração inteira. É muito duro perder uma pessoa como ela”, afirma a artista.

Até o último dia estivemos juntas. Todas as quartas-feiras eu ia até a casa dela para limpar. Rogéria era uma pessoa de gostos simples e amava a vida. É uma grande perda para todos”, comenta Elaine Joana, diarista e amiga de Rogéria por mais de 30 anos.

Nascida como Astolfo Barroso Pinto, em Cantagalo, Rogéria se autointitulava “travesti da família brasileira” e era uma das transformistas mais antigas em atividade no Brasil. A atriz passou a usar roupas e maquiagens femininas na adolescência, mas disse que nunca teve vontade de realizar a cirurgia de redesignação sexual. Começou a carreira como maquiadora, trabalhando com artistas como Fernanda Montenegro, Bibi Ferreira e Elis Regina. Também foi cantora e tornou-se vedete de Carlos Machado.

Durante sua carreira, ela atuou em dezenas de shows e peças teatrais – tendo recebido o Troféu Mambembe em 1979, pelo espetáculo que fez ao lado de Grande Otelo – e programas de televisão, se destacando como jurada no programa do Chacrinha. Rogéria também participou de 11 filmes e atuou em novelas como Tieta, Paraíso Tropical e A Força do Querer.

Ontem, durante o seu velório, Rogéria conseguiu receber muitos aplausos. Ali estavam admiradores de diferentes classes sociais, artistas de várias gerações reunidos e ainda pessoas humildes do “chamado povão” e das comunidades circulando a urna de homenageando a cena final da artista com respeito, ao lado de notáveis e autoridades. ROGERIA conseguiu esta proeza, reuniu no teatro onde tanto brilhou praticamente todas as tribos, que a aplaudiam sempre nos shows e agora foram lhe prestar as últimas homenagens.

A missa de sétimo dia em intenção da alma de ROGÉRIA deverá acontecer na próxima terça-feira, na centenária Igreja da Candelária, em horário a ser marcado, conforme intenção revelada por seu empresário, ALEXANDRE HADDAD e do irmão da atriz, FLAVIO BARROSO.