Encontro entre o papa e Lula no Vaticano destaca face política da Igreja Católica. Na última quinta-feira, 13, o papa Francisco recebeu, em audiência privada no Vaticano, o ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva, réu em uma série de processos judiciais e acusado de crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O encontro, tratado com muita discrição pela Santa Sé, levantou uma série de sobrancelhas e gerou, no mínimo, estranheza. Mais do que uma troca de gentilezas entre um líder político e um líder espiritual latino-americano, o encontro tem efeitos políticos e religiosos simbólicos para ambos os lados. Mas, para entendê-los, precisamos voltar um pouco no tempo. 

No século V, o Império Romano caiu nas mãos dos bárbaros. Roma, uma vez centro político e espiritual do mundo, transformou-se em ruínas, e o último vestígio do esplendor imperial que sobrou foi, justamente, a figura do Bispo de Roma, já então chamado de papa. Ele era para o povo um vestígio de ordem e autoridade numa época tomada pelo caos.

Naquele mundo, só o clero sabia ler, e os bispos, além de autoridade religiosa, começaram a acumular o poder civil. Começava a Idade Média.

Por volta do século XII, o papa já era o homem mais poderoso do Ocidente, e a Igreja e a religião estavam no centro da vida, guiando cada ação de pessoas ou de governos. Porém, a chegada do século XVI trouxe com ela dois duros golpes para a instituição: a Reforma Protestante, que tirou do papa o poder sobre o norte da Europa; e o Iluminismo, movimento que se espalhou pelo continente europeu como um incêndio, pregando a idéia de que a vida devia ser guiada pela razão, e não pela vontade divina. E, com o domínio da razão, veio a decadência da Igreja.

Deposto do papel de dono do mundo, o Vaticano virou inimigo declarado da modernidade. Primeiro foi a ciência, depois a Revolução Francesa e, no século XIX, a industrialização. E como a modernidade é uma inimiga poderosa de se derrotar, o papa foi ficando mais e mais irrelevante.

A Igreja entrou na metade do século XX sem poder político, com fiéis abandonando as missas e cada vez menos padres. Mas chegamos no ano de 1978, e um polonês de nome Karol Wojtyla virou papa, e Roma viu renascer a chance de voltar a um lugar de onde saíra fazia séculos: o centro do mundo.

Encontro entre o papa e Lula no Vaticano destaca face política da Igreja Católica

Naquela época, a Polônia vivia sob o regime comunista, que rejeitava a religião. Eleito papa, João Paulo II não perdeu tempo: um dia depois da sua missa inaugural, em 23 de outubro de 1978, mandou uma mensagem pública aos poloneses: “quero muito estar com vocês no 900º aniversário do martírio de São Estanislau”, padroeiro do país.

O bloco soviético tentou impedir a visita, mas os poloneses queriam ver o papa. Se as autoridades negassem, havia chances até de revolta. Não podiam impedir um papa polonês de voltar para casa. A visita durou oito dias em junho de 1979 e cada discurso de João Paulo II foi presenciado por centenas de milhares de pessoas. O efeito psicológico foi imenso. De repente, a opressão comunista pareceu pequena diante dele.

Um ano depois, o político polonês e ativista dos direitos humanos Lech Walesa, que acompanhou os discursos do papa na Polônia, fundou o Solidariedade, na época um sindicato e a primeira organização de oposição no mundo comunista. Walesa usava um broche com uma imagem da Virgem e uma caneta com a foto do papa.

No final de 1981, o governo polonês fechou o Solidariedade e prendeu seus líderes. Mas eles não podiam colocar o papa na cadeia, e João Paulo II continuou criticando os comunistas, lá de Roma. “Não é preciso ter medo, as fronteiras têm de ser abertas”, bradava o Pontífice. 

Quando o governo polonês, pressionado, reconheceu o Solidariedade, libertou Walesa e convocou eleições, o resultado das urnas foi devastador. Das 262 cadeiras do senado, 261 ficaram para o Solidariedade. E aí o comunismo caiu. E não só na Polônia. Um a um os governos do Leste Europeu desmoronaram.

No fim de 1989 o que fora um poderoso bloco tinha virado pó, e a Polônia foi o primeiro dominó. E ninguém teve dúvidas sobre quem empurrou esse dominó. Naqueles tempos, o papa era uma das pessoas mais populares do planeta e, como na Idade Média, o papado tinha novamente influência sobre o mundo todo.

Encontro entre o papa e Lula no Vaticano destaca face política da Igreja Católica

De lá para cá, tornou-se impossível – e até um risco – transformar o papa em uma figura destacada da realidade e excluí-lo da dinâmica política que rege as relações entre os membros da comunidade internacional. Desde que foi eleito papa, em 2013, Francisco levou ao Vaticano pautas sociais mais próximas do problemas enfrentados na América Latina.

Em 2014, desempenhou um papel fundamental no histórico restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba. A crise política na Venezuela, o impasse eleitoral no Haiti e as negociações de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia foram outras causas mediadas pela Santa Sé sob a tutela de Francisco. 

Na exortação apostólica Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho, em latim), que serve como uma espécie de plano de governo de Francisco, o papa deixa claro que a Igreja tem um papel político e deve estabelecer o diálogo. Um diálogo cuja língua não é somente aquela da fé, mas também aquela de preservação do seu próprio status quo.

Por isso, ao aceitar se encontrar com o ex-presidente Lula, o papa Francisco coloca em movimento uma importante manobra política, que influi diretamente na disputa de poder que acontece nos bastidores da própria Igreja Católica, e que tem no Brasil o país com o maior número de fiéis.

O encontro ocorre em meio ao enfraquecimento do catolicismo no Brasil, e não só no que diz respeito ao número de seguidores, mas também na cena política nacional. À Igreja interessa mais alianças dentro do país, e Lula, aliás, já havia se mostrado um parceiro da Igreja Católica quando, em 2010, promulgou o Acordo Brasil-Santa Sé, que reconheceu interesses e o patrimônio da instituição no Brasil.

Dentro dos muros do Vaticano, o encontro  também serve para jogar luz na ala progressista da Igreja, apoiada por Francisco, mas que não tem tanta força hoje. Nesse cenário, o “capital político” de Lula poderia ajudar a empurrar o fiel da balança nas disputas dentro da Igreja a favor do papa, que tem enfrentado resistência dos grupo mais conservadores da Cúria Romana.

Vale lembrar, também, que ao longo de sete anos de pontificado, Francisco ainda não visitou a sua terra natal, sua amada Argentina. Sob o governo liberal do então presidente Mauricio Macri até dezembro de 2019, o papa, que nunca escondeu sua ligação com o peronismo – modelo que recusa a luta de classes e coloca os pobres e excluídos no centro do debate -, evitava um retorno para não ser acusado de interferir na política local.

O peronismo de Alberto Fernández – amigo de longas datas do Pontífice – e agora atual presidente da Argentina, e sua vice, Cristina Kirchner, muito se assemelha no Brasil ao petismo populista, ao qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o principal expoente. Não por acaso, a visita de Lula ao papa foi intermediada pelo próprio Fernández.

A verdade é que a política, como a conhecemos, é uma brincadeira de criança comparada às manobras e equilíbrios de poder dentro do Vaticano.

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